terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

NA BOCA DO POVO


NA BOCA DO POVO*
Francisco Carlos de Mattos**

“A concepção que o locutor (ou o escritor) faz do destinatário do seu discurso é um problema importantíssimo na história da literatura” (Bakhtin, 1992: 324).
“Tudo o que é dito, expresso, situa-se fora da “alma”, fora do locutor, não lhe pertence com exclusividade. Não se pode deixar a palavra para o locutor apenas. O autor (o locutor) tem seus direitos imprescritíveis sobre a palavra, mas também o ouvinte tem seus direitos, e todos aqueles cujas vozes soam na palavra têm seus direitos (não existe palavra que não seja de alguém). A palavra é um drama com três personagens (não é um dueto, mas um trio). É representado fora do autor, e não se pode introjetá-lo (introjeção) no autor” (Bakhtin, 1992: 350).
Mesmo, ainda, com uma dentição primária, aos doze anos, o meu filho apresenta uma bela arcada dentária. Percebi quando, mais uma vez, estava conversando com ele sobre o assunto que mais gosta, por ter um domínio extraordinário como resultado das constantes leituras de jornais, pesquisas nos diversos "esportes.com", que é o futebol.
Engraçado como, de repente, fui acometido da vontade de, concomitantemente, escrever algo sobre alguns assuntos distintos, tais como dentição, cárie, futebol, estudo, pesquisa, paternidade, minha mãe, meus filhos (a partir do primogênito), pobreza, lágrimas e dignidade. E olhem que eu estava em plena construção de um outro texto-relatório de uma fatia do meu cotidiano profissional. Tomara que aconteçam outras vezes, pois, acredito, isso é fruto da produtividade e da impetuosidade escritora. Isso me remete a Bakhtin (1992: 357) quando, resgatando Marx, afirma que

Karl Marx dizia que, somente ao ser enunciado na palavra, um pensamento torna-se real para o outro e, portanto, para si mesmo. Mas esse outro não é unicamente o outro no imediato (destinatário, segundo) Em sua busca de uma compreensão responsiva, a palavra sempre vai mais longe.
O fato de ser ouvido, por si só, estabelece uma relação dialógica. A palavra quer ser ouvida, compreendida, respondida e quer, por sua vez, responder à resposta, e assim ad infinitum.

Mas, enquanto falava, em pé ao meu lado – e eu sentado na cadeira giratória da mesa do computador – eu “viajava” entre os seus dentes, percebendo a ausência, não de cáries que muitas vezes só são detectadas pelo dentista, daquelas malditas ´panelas` que há 35, 40 anos apareciam na boca da população, resultados de uma falta de educação preventiva e da concepção errônea de que a ulceração dentária não era doença. Cadeira de dentista, boticão eram coisas de poucos, pouquíssimos bacanas, como se dizia na época. Eu não era bacana; portanto, carregava uma baixela inteira na boca. Além da falta de educação, também, o que não é prerrogativa dos tempos atuais, vivia-se num perrengue das algibeiras de fazer chorar.
É de fazer chorar também, as lembranças do esforço sobrenatural da minha saudosa mãezinha de fazer chegar comida à mesa e daí para as nossas bocas. Garantir as refeições era prioridade máxima. O que viesse depois era mero detalhe, pura bobagem.
Nas escolas parecia que igualmente a preocupação era norteada para esse aspecto. Para muitas crianças – arrisca-se dizer para a maioria -, a merenda supria – sempre – o almoço inexistente em casa. Inquietação com a higiene pós-refeições também inexistia nesses lugares. Temas transversais? Não se pode alegar que não existiam. Diferentes das grandes preocupações da comunidade acadêmica da atualidade, como Ética, Meio ambiente, Saúde, Pluralidade cultural, trabalho e consumo e Orientação sexual, os temas eram outros e quem os ditava era o povo que acorria às escolas públicas. Viam-se muitos assuntos como medo, miséria, fome, analfabetismo, repressão, tortura(s), violências de todos os matizes. Os currículos escolares daquela época sofriam, do mesmo modo, uma constrangedora transversalidade, que rasgava as entranhas.
Recordo-me, que naqueles tempos idos – e vão tarde! -, a Prefeitura de Natal, Rio Grande do Norte, desenvolveu no período de fevereiro de 1961 a março de 1964 (argh!) a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, mesmo período em que o mestre Paulo Freire, em Angicos, interior desse estado, lançava a pedra fundamental do seu projeto de Alfabetização¹. De alguma maneira, o país começava a dar passos importantíssimos para a erradicação dessa vertente violenta de construção de “panelas dentárias” na boca do povo. Hoje ainda existem alguns, digamos, bules e frigideiras. Desculpem-me, mas não tinha como fugir dessas ulcerações generalizadas.
E este texto começou com comentários sobre futebol. Vocês lembram? Pois bem, Hoje meu filho gosta desse esporte, movido por uma paixão pura. Gosta
porque gosta sem imposições. Garanto-lhes que até o time foi escolhido sem que infligíssemos qualquer coisa... bem...
Não se pode afiançar que o mesmo tenha acontecido nesse recorte histórico que estamos alinhavando. Até hoje muitos de nós temos um ossinho de galinha atravessado na garganta por conta da Copa de 70, da Seleção Canarinho. Particularmente não consegui entender o que, repentinamente, transformou o Júnior num compositor, quando libertou aquele famigerado passarinho. Algumas pessoas afirmam que ou ele libertava o passarinho ou seria preso.
Acredito, que a minha santa mãe, onde quer que se encontre, esteja desenhando um sorriso nos lábios, por eu não ter me tornado um jogador de futebol, nem compositor, nem passarinheiro, nem militar. Paneleiro aqui pode até ser aquele que faz ou vende panelas, mas em Portugal é outra coisa extremamente diferente. Não fui e não sou nenhuma nem outra coisa e nem tenho mais as incômodas crateras dentárias a que se denominava de panelas. Nem o meu filho. Venho desenvolvendo algumas reflexões, que, pretensamente, me encaminham, mesmo que muito distante, para a direção de Paulo Freire. Isso sim alegra minha mãe, tenho certeza disso.
Quem sabe eu não venha cair na “boca do povo”, no sorriso das mães, na simpatia dos filhos e nas lágrimas de satisfação dos que abrem a boca para sorrir, para falar, para reclamar, para gritar sem a preocupação de que ao abri-la, apareça alguma panelinha onde, por ventura, possa se esconder algum bichinho da cárie.
Entendemos então, e mais uma vez, com Bakhtin², nessas breves exposição e resgate mnemônicas, que mesmo reconhecendo que todas as descrições dos atos diferem fundamentalmente dos atos tais como eles realmente são realizados, ele procura descrever - o próprio ato. É uma maneira particularmente complexa de demonstrar a verdade do velho dito segundo o qual você não pode escapar da teoria, porque qualquer oposição à teoria é em si inelutavelmente teórica (p. 8).
Foi o que tentamos, de alguma maneira, demonstrar nessas poucas linhas traçadas, convicto de que algumas falhas são inevitáveis por força da época histórica trazida à memória. Os dentes podem estar ótimos, mas os neurônios não podemos afirmar.
Que a cárie corrói os dentes, não temos dúvidas. Que ela é, antes, um ato de corrosão de políticas públicas da saúde do povo, também não. O que não pode acontecer, é que tais desmandos continuem a ser atos de corrosão da dignidade humana.
Por essas coisas, a minha mãe não pode estar feliz. Tenho certeza que a mãe de ninguém!










Referências Bibliográficas:
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal [tradução feita a partir do francês por Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira; revisão da tradução Marina Appenzeller]. – São Paulo: Martins Fontes, 1992. – (Coleção Ensino Superior).
_______._______. Para uma filosofia do ato [tradução de Carlos Alberto FARACO e Cristóvão TEZZA]. Texto completo da edição americana Toward a Philosophy of the Act (Austin: University of \texas Press, 1993). Tradução ainda não revisada, destina-se exclusivamente para uso didático e acadêmico. Disponível em:
www.grupos.com.br/group/teoriadialogica/Messages.html?action=download&year=08&month








 _________________________
* Primeira publicação feita em www.hepheceheme.blogspot.com
** Professor e Orientador Educacional da Rede Pública Municipal de Cabo Frio - RJ
¹. As primeiras experiências do Método Paulo Freire começaram na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1962, onde 300 trabalhadores foram alfabetizados em 45 dias.
No ano seguinte, foi convidado pelo presidente João Goulart para repensar a alfabetização de adultos em âmbito nacional. O golpe militar interrompeu os trabalhos e reprimiu toda a mobilização popular. ( Disponível em 
http://www.scielo.br/pdf/ea/v15n42/v15n42a13.pdf. Acesso e captura em 22.09.2008).


Técnicas de elaboração de artigo científico

Postagens populares